. why should i say? me? who even the dreariest word cannot say.... please, dont bother... .

Tuesday, March 07, 2006

Blog do desassossego

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras sֳ£o para mim corpos tocֳ¡veis, sereias visֳ­veis, sensualidades incorporadas.Estremeֳ§o se dizem bem. Tal pֳ¡gina de Fialho, tal pֳ¡gina de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingֳ­vel que estou tendo. Tal pֳ¡gina, atֳ©, de Vieira, na sua fria perfeiֳ§ֳ£o de engenharia sintֳ¡ctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delֳ­rio passivo de coisa movida.
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delֳ­cia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me faֳ§am festas, crianֳ§a menina ao colo delas. Sֳ£o frases sem sentido, decorrendo mֳ³rbidas, numa fluidez de ֳ¡gua sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trֳ©mulas de expressֳ£o, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.
Nֳ£o choro por nada que a vida traga ou leve. Hֳ¡ porֳ©m pֳ¡ginas de prosa que me tֳ×m feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda crianֳ§a, li pela primeira vez numa selecta o passo cֳ©lebre de Vieira sobre o Rei Salomֳ£o. "Fabricou Salomֳ£o um palֳ¡cio..." E fui lendo, atֳ© ao fim, trֳ©mulo, confuso; depois rompi em lֳ¡grimas, felizes, como nenhuma felicidade real me farֳ¡ chorar, como nenhuma tristeza da vida me farֳ¡ imitar. Aquele movimento hierֳ¡tico da nossa clara lֳ­ngua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitֳ¡veis, correr de ֳ¡gua porque hֳ¡ declive,aquele assombro vocֳ¡lico em que os sons sֳ£o cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoֳ§ֳ£o polֳ­tica. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda choro.Nֳ£o ֳ© - nֳ£o - a saudade da infֳ¢ncia de que nֳ£o tenho saudades: ֳ© a saudade da emoֳ§ֳ£o daquele momento, a mֳ¡goa de nֳ£o poder jֳ¡ ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfonica

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