ANDARA
Águeda é um nome de mulher, mas poderia ser o nome de uma guerra – daquelas remotas que pouca coisa conseguimos guardar no fundo de nossos arquivos memoriais. Nome de mulher. Águeda me habitou por tempo indefinido. Não ousaria dizer as datas, não ousaria dizer as senhas... que tivemos? Eu e ela. Ou apenas eu em meio à solidão que não se desfaz. Era branca a pele. Branca como algo que tu pensas que é puro, que tu pensas que é intocado. Branca a tez. A de Águeda era branca. De um branco de se pensar que faltaram as cores, que faltaram as tintas, que faltou o painel, que faltou o retoque, que abundou a febre terçã, que restou o fechado da casa, as janelas fechadas e o corpo sempre nu. As portas trancadas de São Paulo, o trancafiado da vida - sempre a minha? Então, Águeda, ou esta coisa que não se dá, ou essa coisa de nunca se deixar ao vento de que pode uma tarde, e então, Águeda nessa sua brancura a tecer jogos de recusa quem se lhe oferta de passagem. Os outros. Todos os outros. Os homens da cidade. Os não-eu. De uma brancura, a pele. A tez de Águeda era como que esta coisa que se admira de longe, e que se leva consigo na esperança de investir num jogo de toques e de ansiedade. Porque eu queria Águeda. Talvez como quisesse o infinito. Talvez porque ela fosse esse impossível de carne, de ossos e de placenta. Esse impossível, compacto, à minha frente. Bem maior do que o imponderável dos dias, do somatório de que fosse capaz este imponderável dos dias. Os desejos todos, todos os desejos, um a um, recolhidos do campo, recolhidos da cama onde ela fica ‘horas’ em formato de sonhos, todos os desejos recolhidos, enfiados no dentro sem fundo de um saco, todos, embolados como se dissessem respeito a um único tema, como se dissessem respeito a uma única vontade expressa numa determinada hora da tarde, todos os desejos, o impossível de sua composição, o inquieto que eles parecem trazer consigo se vistos assim de uma só vez, se pensados de sopetão e de forma apressada, todos os desejos, e esta inquietude de irrealização que paira quando se nos vemos em face de tudo o que poderíamos ter sido e não fomos, e que não demos conta. Porque era impossível que assim se desse. Um dia pensei ouvi-la como um chamamento de mim. Um chamamento. Como se houvesse na curva de sua voz essa pessoa, que eu era, em atenção àquela sonoridade. Bernardo! Bernardo! – esta a voz em chamada de mim. E eu a olhar em desespero de causa para os lados, e eu a olhar, por trás da palavra sem carne de lábios e de língua, na expectativa de mirá-la, na expectativa de encontrar apenas a ela, senhora interdita de meu desejo, o articular daquele fonema que de mim dizia. Bernardo... Bernardo – mas era apenas o espectro e o fantasma. Por trás da palavra, o sopro de meu desejo, como se fora eu o articulador daquele falado que nem havia. Águeda era esse silêncio. Era essa ausência de procura.

